De certa forma, nossa história começa mais de 25 anos atrás quando Fernando Oliveira Silva, um dos fundadores do Ponto de Cultura e naquele ano cursando o 1° ano do curso de Ciências Biológicas, chegou pela primeira vez na pequena cidade de Cananeia (SP) em 1994 aceitando o convite de um pesquisador e professor universitário que ainda hoje orienta e coordena estudos científicos com o boto-cinza (Sotalia guianensis) na região do Lagamar.

Naquele tempo, Fernando morava na periferia na cidade de São Paulo e nem imaginava o que viria a lhe acontecer pela frente. Apresentara-se a ele a incrível oportunidade de estudar o comportamento noturno daqueles botos na natureza, algo que lhe encantou e mudou profundamente. De súbito, decidiu que ali seria o lugar onde trabalharia, moraria e viveria em algum tempo não distante.

Alguns anos depois, em 1997 mais precisamente, o ainda estudante tomou a iniciativa de organizar uma saída de campo para observar os botos na natureza. O sucesso foi imediato e duas turmas se formaram quase que instantaneamente!!!

Ali ele enxergou uma nova oportunidade: o imenso potencial de mobilização de estudantes universitários contido naquela atividade prática. Decidiu então, transformar aquela viagem num curso teórico-prático que proporcionaria uma experiência única a estudantes universitários e demais pessoas interessadas em ver de perto e compreender aspectos do comportamento e das vidas dos botos na natureza.

Voltou a procurar aquele professor/pesquisador da Universidade Federal do Paraná (UFPR) que havia lhe proporcionado a primeira oportunidade – conhecer o Lagamar e acompanhar um projeto de pesquisa com os botos – e que lá atrás havia lhe dito que criaria uma organização não-governamental para atuar com pesquisa e educação na cidade de Cananeia.

Assim, em junho de 1997, antes mesmo da criação daquela instituição, o Instituto de Pesquisas Cananeia (IPeC), aconteceu o primeiro curso sobre os botos com a participação de cerca de 40 estudantes de diferentes universidades da capital (São Paulo). Entre 1998 e 2010, o curso pioneiro sobre cetáceos, bem como, os demais cursos criados e/ou coordenados por ele (Fernando), receberam mais de 5.000 (cinco mil) alunas e alunos de diferentes universidades nacionais e internacionais.

A partir dali, os projetos e programas científicos e educacionais do IPeC intensificaram-se e começaram a entrecruzar-se com algumas ações culturais de forma geral. Em 2005, o acúmulo de vivências, experiências, projetos, programas, eventos e ações realizadas no município foi pela primeira vez reconhecido por um órgão governamental. O extinto Ministério da Cultura, através do edital para seleção de Pontos de Cultura, reconheceu a importância daquele trabalho, possibilitando assim, o planejamento das ações futuras a curto e médio prazos. Sem dúvida, um importante apoio e reconhecimento pelo conjunto da obra realizada naqueles frutíferos anos. Paralelamente, no mesmo ano parceiros locais conquistaram o apoio do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e do Ministério da Educação (MEC) para criação da Sala Verde Cananeia, do Coletivo Jovem Caiçara e do Coletivo Educador do Lagamar. Decidimos então, integrar todas essas ações na base criando um espaço democrático concebido como uma rede orgânica agregadora de processos de criação, produção, ação e fruição educacional e cultural participativas.

Tempos depois essa pujante e rica experiência foi reconhecida pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) que incentivou a produção de um documentário através de processo educomunicativo, entre a Sala Verde Cananeia, a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) e o Departamento de Educação Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (MMA).

O filme mostra um pouco das ações colaborativas que existem entre os diferentes grupos, coletivos e espaços educadores do município de Cananeia (ver https://youtu.be/T6WfWeMhHXc). Importante ressaltar, que o vídeo foi apresentado como pauta das Salas Verdes na reunião com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP, ocorrida em 2008 em Angola.

Junto ao Coletivo Jovem Caiçara e ao Coletivo Educador do Lagamar pudemos contribuir com diversas ações foram muito significativas, como a publicação do livro Saberes Caiçaras – a cultura caiçara na história de Cananeia (acesso em https://bit.ly/33TWBcK) e o vídeo documentário Saberes Caiçaras – a reinvenção da cultura caiçara em Cananeia, (acesso em https://bit.ly/2X1v1sm) ambos produzidos por jovens através de processos e métodos participativos como a pesquisa-ação-participante.

Em 2007, esse coletivo de jovens recebeu o Prêmio Culturas Populares 2007 – Mestre Duda – 100 Anos de Frevo, por desenvolver ações de manutenção e valorização da cultura caiçara através da publicação do livro e da proposta do vídeo documentário. Em 2008, essas iniciativas receberam a indicação e recomendação de replicação como ações de referências pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) durante o Processo de Registro do Fandango Caiçara como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro.

Entre 2005 e 2008, diversas ações e projetos foram implementados e realizados na região desenvolvendo a intenção deliberada de se criar um programa mais amplo que pudesse abarcar e absorver todas essas iniciativas de forma participativa e colaborativa. Contudo, os arranjos institucionais e administrativos não colaboravam para que aquele ideal fosse alcançado imediatamente. Assim, seguimos participando e fomos contemplados em diversos editais do Ministério da Cultura, destacando-se: Ação Griô, Escola Viva, Agente Cultura Viva, Prêmio Asas e Cultura Digital.

Vale destacar ainda, que no ano de 2009 tivemos nossa proposta aprovada e firmamos contrato com a Secretaria de Estado da Cultura (SEC) para continuidade e ampliação das nossas ações através do edital Pontos de Cultura SP e também firmamos convênio com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), através do edital Apoio e Fomento ao Patrimônio Cultural Imaterial para o desenvolvimento do projeto Programa Puxirão: apoio ao fandango caiçara no município de Cananeia no município.

Entre 2010 e 2012, seguimos aprovando propostas em diversos editais e chamadas o que resultou na conquista do Prêmio Culturas Populares 2012 – Mazzaropi.

O não recebimento de valores financeiros de propostas aprovadas em editais do Ministério da Cultura, que fizeram com que perdêssemos o espaço físico que nos abrigava, e a perda de pessoas que atuavam diretamente na equipe de gestão do Ponto de Cultura nos fizeram pensar seriamente na possibilidade de encerrar definitivamente as ações do Ponto de Cultura. Contudo, em 2013 decidimos nos desvincular do IPeC e formalizar oficialmente o Ponto de Cultura Caiçaras, a qual compôs-se naquele momento por estudantes, pesquisadores, educadores e lideranças de povos indígenas da etnia Guarani M’Bya e de comunidades tradicionais caiçaras e quilombolas residentes no município de Cananeia (SP).

Desde então, mantemos nossos programas e ações por meio da aprovação de propostas de nossas/os associadas/os em editais específicos. Destacam-se a proposta aprovada em 2015 no edital do Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, para realização da 1ª Festa do Fandango Caiçara de Cananeia; a co-gestão do projeto Ô de Casa: mobilização, articulação e salvaguarda do Fandango Caiçara, proposto em 2017 pela Associação Mandicuera de Cultura Popular, instituição parceira sediada na cidade de Paranaguá (PR), que teve o apoio direto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o qual inclusive possibilitou que organizássemos a 2ª Festa do Fandango Caiçara de Cananeia, bem como, colaborou para as festas semelhantes ocorridas nas cidades que compõem o chamado Território do Fandango Caiçara, a saber: de Paranaguá (PR), Guaraqueçaba (PR), Iguape (SP) e Ubatuba (SP).

Nos anos recentes seguimos conquistando prêmios e editais que mantiveram nossa atuação viva a presente na região. A mais importante novidade é que agora passamos a trabalhar com comunidades indígenas da etnia Guarani M’Bya, o que nos tem proporcionado um grande e renovado ciclo de aprendizagem.

De forma análoga, ressaltamos nossa participação no recém criado Comitê de Salvaguarda do Fandango Caiçara, o qual está diretamente vinculado ao Instituto do Patrimônio Histórico

Para os próximos anos prevemos a implementação do programa Morada dos Povos da Mata Atlântica que terá como base a construção da Universidade Aberta dos Povos da Mata Atlântica e a conquista da Reserva Natural e Cultural dos Povos da Mata Atlântica consolidando nossa missão, visão de futuro e valores institucionais.

Scroll Up